quarta-feira, 31 de agosto de 2011

se disser que estou morto
não te assustes
nada se passa em mim ou no mundo
além do passeio na concretude
do trabalho,
da mendicância
da rua e da parede de poesia
que a afasia não permite descrever
e a miopia distinguir

envolto nesse lixo:
de olhares e palavras
sem nexo
decrépito, repugnado
prolixo
procuro, na decomposição 
dos sentidos,
encontrar vida proveniente
brotando
desta putrefação toda

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Poema de amor

ando anônimo pela cidade
cheirando
a álcool e tabaco
encharcado da chuva e dessa
luz incandescente
desço a rua atônito e indeciso:
fodido só
ou safo entrementes?

sobre o asfalto vomitado
estou perdido, mas permaneço
seguindo os restos
como um rato (bêbado).
rastejando entre os dejetos
sobre as faltas, vou-me tardo
tateando algum desejo

cuspo .
cuspo a pedra nua
vislumbrando a pele escura
que é motivo deste vômito

e me move

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Em tempos de apatia otimística
Cabe lembrar o secular ensinamento:
Os ratos saem dos bueiros
Em alguns momentos
Para morrer na felicidade

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Dentro desta pele acidentada
Procura o que há profundo – em si, nada
Percebe menos essência do que acidente
De permanente, o acre do balbúcio

Por fora lisa, a boca desdentada
Cerrada, esconde o áspero – do deveras gritado
Como não se pode, poda (... penso
Ensinado: pede asilo e se prostra)

A cara marcada e os lábios roxos
São o sufoco da língua afiada
Que tenta esconder com os olhos
O terror do abismo na garganta

Não olhe fixo se não quiser ser olhado
Foi o que ouvi consternado e digo:
O diabo é o silêncio diáfano da fenda
Que não adverte a vertigem adida

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Conheço dois métodos de escrita:
umas vezes digiro as palavras;
noutras vomito as minhas tripas.