domingo, 3 de março de 2013


fazer poesia com um martelo
que desafia a pedra
intrincado no concreto
num sistema com o braço
poesia
como trabalho explorado
na intensificação dos gestos
contatos contados
pela iminência da ruptura
experimentar a brutidade
da dureza
de cada cálculo
e rasgar a pedra fragmentos
fazer pulsar as pedras
dos peitos
na tensão do músculo
quando arrebenta
o sistema no braço
no meio do caminho
as perdas
do peso do martelo
estendido no braço extenuado
pela gravidade do
impacto
contínuo rígido movimento
de encontrar o concreto
que nos constrói
com palavras plenas de fissuras
a ganhar vida
pela gestação
do que irrompe
na abertura

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

mares de mentira na travessia
do homem do barco
de papel
elegantemente prostrado
com a felicidade apresentável:
dentes cerrados
boca aberta
olhos arregalados
parece que não sabe:
a viagem incerta
encerra a liberdade
em alto-mar
(de calmaria ou tempestade)
não há a vulgaridade
do slogan que invade a vida
em uma propaganda de celular
navegar é sentir o peso
de cortar a água
enquanto se deixa cortar
e se entregar à experiência: mareado
sem controle do prumar
o barco
do homem
de papel
elegantemente dobrado
dos mares de mentira à travessia
é lançado
ao invés de pairar para
se perde no sem-fundo
do desconhecido do mar

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013


Tudo o que há de profundo
encontra-se
na superfície do mundo

sábado, 12 de janeiro de 2013


Um pombo
imundo
planando no
centro da cidade
sem um plano
tem uma
feiúra fácil
que falta
aos corpos depenados
que fazem parte
da mesma paisagem

(e estão fora do plano)

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

O sol cega
cuspindo o fogo do presente
no olho
do horizonte
do futuro
e seca a garganta
ensurdecida pela aridez
da desrazão
da experiência rasa
do absurdo
O calor experimentado
indistintamente
abafa a abertura
do mundo a nada
Esclarecida a cidade
se apaga nas retinas
de pedestres
atravessados
pelas luzes que obscurecem
o amontoado que soterra
o sentido
do suor
do que soa
Avenidas coletivos pernas colos culos braços trabalhos
tempo máquina
vida sem instante
de chiaroscuro
E o sol cresce
iluminando as costas
e faz a gente
se abster e fugir
com as vistas
do que alimenta a vida
e a certeza
da contingência
do futuro