sábado, 26 de maio de 2012


no vácuo

entre indivíduo   e   mundo
vemos a novidade que irrompe
da vivência de janela de edifício:
lançam-se os livros sobre nada

sobram as vacas magras
de leite derramado à toa
pela ordenha num falo
que não diz a que vem

como mercadoria sem preço
nem valor - pelo excesso
de complexidade do léxico -
as palavras são presas nos apartamentos

e apartam os sentimentos
                                                           (apenas de passagem)
e entopem os poros, não se respira
entre os versos, resta a meta
da conquista pelo sufoco

mas a música experimental não ecoa
talvez pela ausência de tempo
para encontrar um ritmo
a que se possa dar ouvidos

no poema pretenso de pathos
falta o preciso e o sentido
a envolver com carne as palavras
então, há multi-tudo-nada e fome

há esse vácuo tornado vida
nas vitrines cheias de árvores
desperdiçadas e palas gastas
com poesia feita fetiche

domingo, 6 de maio de 2012

Gostaria de te concertar
entre os dentes
fazer a música com aspereza
inspirando-me na orquestra
que me cerra.
Entrementes,
não posso tocar ou te reger
e no ranger atônito
não há nota
que possa colocar tudo
ao avesso,
mesmo que houvesse,
não há construção
que concerte
todos aqueles silêncios

pausas.

Gostaria
de te concertar
entre os dentes
mas já não há
qualquer um
conserto

segunda-feira, 30 de abril de 2012

A madrugada
livra as horas
das engrenagens
e pára
os olhos
no céu de chumbo.
O dia,
subtraído à claridade
intermitente,
é o lugar do instante
que se dobra
sobre si.
Sem sombras,
pode-se
contemplar o momento
que escapa
ao tempo
e obriga
o céu a nos dizer algo
apesar
do ressoar
da mecânica
do quartzo
no silêncio.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

                            
                               para B. A.


Olho pela janela te procurando
não sobra nada de mim
nesses casarões que assombram
as ruas que trazem histórias,
que me atravessam. Atropelado

nu. Agradeço, ninguém me vê,
despudorado, olhando dentro de ti,
sentindo teu cheiro de castanha e
combustível queimado e
permanência dos dias. Tacanho,

tenho nada daqui que não seja
a ti nos meus sonhos de passagem,
de passado pastiche. Ensejo

procurar-te, e esta tua pele cinza
sob as roupas, a mim estranhas,
só bons ventos trazem. Entranho

esta luz amarela que brilha dos teus
olhos aos meus e escondem a distância
que não supero da janela. Supurado.

sábado, 7 de abril de 2012

Meus olhos,
cor de sangue,
estão em chamas.
Tu me chamas,
em brasa,
e vou

Perdido estou
nesta pele.
Te peço:
deixa que arda,
e me deixa
sem ar

até que se apague.

E pago.