quinta-feira, 3 de outubro de 2013

De nada adianta tensionar
a palavra que se quer corrompida
se não se crava com os dentes
a boca no mundo
para experimentar o gosto
de asfalto quente e cimento
e deixar com a língua
a marca como uma lesma

De nada adianta acreditar
na necessidade do léxico
como lixo revirado
e deixar tudo cinza-parede
perfeito sem qualquer ruído
e deixar concretos límpidos
tendo só no piso o pixo
e poesia presa em apartamento

Não há lado a arrebentar
se a palavra fica guardada
seca na boca e as línguas
dobram-se sobre si mesmas
porque não há mais nada
a ser dito porque só há
entre todas as coisas abismos

terça-feira, 1 de outubro de 2013

                                             para I. B.

Na paisagem devastada
muitas ruínas para catar-se
o vigor em traços
no meio da travessia
no meio da estrada

Tudo já foi menos estranho
nessas terras de terra vermelha
que agora obstrói vias
deixa lama nas línguas
olhares lânguidos
abdomes túrgidos

Estamos grávidos do deserto
dessa hora que não passa
do absurdo vulgar insistente
instante que deixa seu rastro
no olho que gasta
a luz do dia em nada

Primavera infundada
perdeu uma pele
na qual brilhava

sábado, 28 de setembro de 2013

Acorda
Acorda
Acorda
Ecoa na madrugada da cidade
o grito rouco
do galo desregulado
logo o galo ou logos
àquela hora?
Sem pena
espora ou crista
é só garganta na luta
e grita
contra o silêncio
Peito aberto na certeza
do tiro feito
que atravessa o vazio
e o escuro inflado
inflamado só resta
gritar

domingo, 15 de setembro de 2013

A carne é tudo que se tem
mesmo quando fica velha
e faz ressaltar os ossos e poeira
e parece melhor um espectro
melhor do que o expectorante
e as ruínas que se apresentam
e as peles que se excedem
A carne só é no tempo
se perfaz quando não passa
e habita a casa o viveiro
maçanetas invertidas livros empilhados
e esse sol no limiar da morte
a iluminar as coisas
em suas fendas
A carne é isso: dura
em tudo que existe
cheia de aberturas
mesmo se dobrada em si
encontra-se aqui no lugar
nenhum da conjunção
que repercute nos corpos
A carne velha alienada
ainda se enterra no mundo
toma toda terra e fica
nas saudades que a situam
e nessa manga que está sendo
atravessada pelos dentes
e soltam as linhas que enovelam
uma boca encorpada pela carne

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

seu por do sol fica
queimando as retinas
em negativo
é o que permanece
através do tempo
que não opera
nos movimentos
de qualquer ente
que a ninguém pertence
mas a pele branca
não o sente
sentada em um café
embaçada no sol preto
e na mecânica
de pernas e automóveis
ainda há de descobrir
o não visto ali
exposto
queimando outros
olhos e peles
que não se escondem
da vida a se mostrar
enquanto arde
o horizonte vasto
olhos distantes e aqui
compartilhando o por
na ausência do corpo
e desta cor
que brilha nas retinas
engolidas
por seu mar