quinta-feira, 3 de março de 2016

há uma puta no ponto
do cruzamento do parque
com uma mala
o que ela guarda?
o que aguarda?
nós que nunca esperamos
nada da vida
sempre prontos
para a próxima
partida
carregamos tudo
o que é preciso
para nos mantermos vivos
em uma parada
incluindo o corpo
a ser mais ou menos vendido
e a intimidade que
lançada no mundo
nunca é dada
ainda que descubramos
o que existe
na mala

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

in progress

há areia sobre o asfalto
onde antes havia mar
como uma lembrança
do fundo do lugar
                              dragado
                                            tragado
- por necessidade de carros
como modo de vida da urbe -
que ressurge no espelho
feito de um punhado
                                                                            sob o sol de meio-dia
nessa superfície lisa, a combustão
lambe aos poucos
os corpos absorvidos pelo piche
que camada dura sobre a terra é
reflexo
a mostrar impessoalmente
a cidade a tudo aterra
construída em amontoados de
                                                 pessoas e pedras
sobre ruínas
de vias, praias, vilas, memórias
que agora só podem surgir
- como perda
como algo que no coração é falta -
no espaço entre a calçada e a faixa de pedestres
porque reside essa porção de areia
em sua existência eterna
no meio de solados emborrachados vento papéis de bala e latas
em uma espécie de fresta
que há de engolir nossos olhos
e tornar firmes nossas
                                     palavras e pernas
para tomar rumos que resistam ao
cálculo dos metros cúbicos de concreto
à indiferença em progresso
que há de engolir nossos olhos
ao abrir uma fenda na rua
na ressurgência da pulsão do mar

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

sei que o sol está
em algum lugar
sob os nossos pés
por isso dançamos
como o mar com o calor
essas idas e vindas
da superfície são só
o movimento profundo
do sol em tudo
que atravessa
nossos corpos
e faz girar
a terra no braço
ainda que pareçamos
parados não perecemos
porque há sol e essa dança
universal incessante
que dentre tantos gestos
precisos deixa a necessidade
do improviso
do imprevisto sob o sol
sob os nossos pés

quarta-feira, 22 de julho de 2015

o tempo vivido marca rostos
deixa na pele as rugas
e acumula o esquecimento
das rusgas, das ruas, das frutas
que plantaram
esse hálito na boca
e a fina folha a recobrir
como hera nossos olhos
a apagar no hábito os gestos
que somos
o tempo vivido marca gostos
afetos que habitamos
esse sentimento do mundo
lançado nos espaços
entre palavras, pessoas, portos
que nos deixaram
uma expressão no corpo
o tempo vivido gravado
de forma aguda torna-se
vívido

terça-feira, 21 de julho de 2015

apreciaria um olhar nítido
como um girassol de pessoa
mas envolvido nos ruídos
do asfalto de placas de telas
de concreto o que vejo
é só passagens de paisagens
nada de estrada cheia de lados
tudo novo e habitado
mas espero para ver
brilhar algo nesse olhar turvo
de mato de passeio público
nascido em toda cidade
entre o vapor dos carros
contra o que é planejado
um olhar de mato
que mostre as metas
como olvidamento do que
é preciso na vida
e deixe na palavra
ao menos o cheiro de
uma flor desconhecida