sábado, 25 de outubro de 2014

o rumor dos morros
enche as ruas
com seu ruído rígido
se instala nas latas
que sustentam
o muro
o trânsito
as calçadas da madrugada
molha nossas línguas
de falas ralas
mas não há nada
em nossos olhos
tomados pela luz clara
para que ver ou ouvir
se é só vulgata?

o rumor dos morros
que ninguém construiu
enche as ruas
com seu ruído rígido
e faz brotar o mundo
em nós
se sentimos na pele
a música entranhada
enquanto atravessamos
no meio da cacofonia
e sentimos o murro
do calor dos corpos misturados ao
asfalto

o rumor dos morros
enche as ruas
com seu ruído rígido
é nosso primeiro mundo
é muro
é música
é murro


quarta-feira, 23 de julho de 2014

um verde parco
sobre o deserto
sob concreto e carro
de onde saiu tanto espaço?
parece só vazio destinado
por sua escala
a encher a rua de abismos
mas de dentro da natureza dura
do clima seco
de edifícios secos
e deste sol que arde
nasce, morre, nasce
morre, nasce
nasce
brotando da superfície alcalina
hostil da cidade
o mato não planejado
que se enraíza em suas ruínas
e constrói esquinas
nas rachaduras das quadras

sábado, 21 de junho de 2014

é carnaval nas ruas narrando
a necessidade do desconserto
de impor a ressaca
ao deserto
de dar a cara à máscara
de dar à cara a máscara
e prender o sol
entre os dentes
para prolongar
seu calor na boca
e sentir repercutir no corpo
os ruídos suor das ruas rimas
e abrir a vida às quimeras
em banheiros químicos
é carnaval

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Fragmento (da travessia) III

nós dados nas esquinas por atropelos sentindo a acuidade do sol e de cotovelos não há travessia tranquila nessas ruas não há sinais claros nos corpos que se cruzam só há o vácuo do próximo ato do movimento desencadeado pelo sol que atravessa o olhar só há essas pequenas passagens que se abrem entre as pernas e revelam ser comum dar em algum lugar

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Aqui não há rompante
de sangue nas ruas
nem rupturas
na superfície dura
do concreto sem
erupção a irromper
- como se lava
o pó de minério e borracha
e as marcas dos pés
que marcham -
aqui só há o gosto
do pus no cuspe na boca
esta cidade inflamada
está pulsando fraco
como bate um coração
de burocrata